

MOSTEIRO DE S. JOÃO DE TAROUCA
Este
Mosteiro, tal como o de Salzedas pertenceu á Ordem dos monges Bernardos.
Data do século XIII a sua fundação e a ele anda ligado o
nome de D. Afonso Henriques. Obra colossal no seu conjunto e interessante nas
suas partes, é tão valiosa e notável que tem prendido a
atenção dos estudiosos na matéria.
Por mandado de S. Bernardo e seguindo o rito monástico do tempo, vieram
ao Ocidente doze monges para fundarem a instituição que se regesse
pela sua regra. Estabeleceram-se num pequeno vale, fértil e aprazível,
cavado, quasi a prumo, entre serras alpestres, na junção de dois
córregos-Pinheiro e Aveleira-que, fundidos, se vão juntar ao Barosa,
dezenas de metros abaixo do Mosteiro.
João Froilaco, de Tarouca, foi o primeiro
arquitecto destas obras; Boemundo, de França e João Cirita,
português, os seus primeiros abades.
A fama
das virtudes dos monges, suas pregações e, sem dúvida, o
ambiente religioso do tempo e os atractivos do lugar que habitavam, tudo concorreu
para, em breve, se povoar aquela estância.
A generosidade dos fieis, príncipes e reis não se fez esperar.
Afonso IX de Leão, Rainha Santa, D. Sancho I, D. Afonso III, D. Diniz, D.
Pedro, conde de Barcelos, D. Urraca e seu marido Pedro Anes, foram algumas
grandes figuras a fazer importantes doações ao Mosteiro.
Tinha herdades em muitas
localidades e era padroeiro de várias igrejas, mas o maior rendimento
vinha-lhe da quinta de Mosteiró segundo o cónego Rui Fernandes,
era de: 800 arrobas de sumagre, 15 mil almudes de vinho, 2500 de azeite, 1000
de centeio, 600 de castanhas, 300 cargas de cerejas e 300 de outras frutas. Com
tão colossal rendimento chegou até 1834, ano em que foi extinto por
D. Pedro IV. Eis o que nos diz a história sobre o mosteiro de S.
João: Não é possível dar pálida
descrição da sua traça enorme com o que resta dele. Diz o
Ab. Vasco Moreira: Era majestoso! Vimo-lo, em pé, no início do
século, paredes nuas é certo, mas de pé, janelas mutiladas,
ferros torcidos, traves partidas e o chão coberto de destroços.
Um longo dormitório, ao norte, de mais de 150 metros de comprido, com
muitas celas; corredores e salas a nascente; hospedarias e farmácia ao
poente; a torre e a Igreja ao sul; no meio o grande e pequeno refeitório,
a sala do capítulo e os claustros: era o convento.
No centro do pequeno claustro, destinado aos hóspedes, tão elegante
e artístico, erguia-se uma obra de arte, célebre pelos protestos
que ocasionou a sua inauguração entre a comunidade monástica.
Destoava daquela casa religiosa pelo seu flagrante realismo: era a fonte das
sereias.
A Fonte das Sereias!
Entre renques de verde murta, erguia-se acima da
copa arredondada dos loureiros e emergia de enorme tanque, orlado de estatuetas.
Foi obra vinda de Itália, que o abade, em
contacto com a côrte pontífica quiz adquirir. Embriagado das belezas
da Renascença, então em plena grandeza, ambicionou, no seu convento,
alguma coisa que lhe recordasse a divina arte. Era de mármore e
tão linda que a envolveu a lenda! Coroavam-na três sereias, que lhe
deram o nome, jorrando água dos peitos intumescidos. O próprio
Pontífice a encomendou ao célebre artista João de Bolonha. Mas essa
circunstância não era carisma que a recomendasse à totalidade
dos monges: os mais piedosos e castos não queriam aquilo na casa do senhor.
Três sereias nuas, formas voluptuosas, seios nus, comprimidos por alvas e
delicadas mãos a fim de os mamilos jorrarem, com mais força, a
água cristalina! Podia lá ser? Era um
escândalo para os monges e donatos do mosteiro. O caso foi levado a
capítulo e ali o D. Abade atalhou a tais escrúpulos com exemplos
de igrejas, laivadas da arte pagã.
E, contra elas, não se erguera uma voz; só ali se protestava!
Não havendo razões a convencer os protestantes e defensores da
moral do claustro, o Abade, enérgico e decidido, contra a vontade geral,
inaugurou a Fonte das Sereias, que tantas décadas viram de pé e
cujas camarinhas, rolando na enorme taça marmórea o sol da
manhã tantas vezes irisou.
IGREJA DE S. JOÃO DE TAROUCA
É a maior glória à Beira pelos monges Bernardos esta igreja,
dentro de cujas abóbadas souberam aliar a riqueza a um requintado gosto
artístico. Ergue-se ao sul das ruínas do extinto mosteiro. Pela
admirável escultura e pelos seus quadros formosíssimos, azulejos e,
históricos túmulos, é, sem dúvida, uma das mais
notáveis do país. É monumento nacional.
A fundação deste templo data do princípio da
monarquia(1157). A arquitectura do templo, tal como hoje se ergue no vale de S.
João, obra do século dezasseis até ao princípio do
século XVIII.
Interiormente, esta igreja é como um museu em que o fino gosto do seu
recheio se alia à boa disposição das partes. Tem dez altares
todos (excepto dois), da mais pura renascença. O seu coro de pau santo, e a teia
de incrustações metálicas singelamente buriladas; o seu
órgão de elegante e majestoso frontispício e um dos
púlpitos, com docel cravejado de estrelas de metal, ladeando uma pomba,
são joias raras.
O altar de N. S. da Piedade e o de S. Pedro, pelas
suas belezas arquitectónicas, pela sua maravilhosa decoração
e pelos quadros que os completam, devem ser os melhores deste templo,
e dos mais notáveis do país. Como coroa escultural deste templo,
dois ricos e artísticos candelabros pendem das abóbadas. Todo este
conjunto a arte ali se afeiçoou.
A luz coada dos pequenos vitrais e da enorme
rosácea, banhando as formas brandas das imagens e o ouro dos altares,
completa o ambiente místico donde parece sair uma voz doce que nos diz
ali: «ajoelha e ora».
Como se estas lindas jóias, fossem poucas ainda, para fazer avultar
esta obra, entre as elegantes colunas deste altar, avulta o célebre Políptico da Virgem.
É obra do século XVI, de escola portuguesa de
pintura antiga atribuído a Gaspar Vaz.
Quadro de S. Pedro. No altar do mesmo título, está o
não menos célebre quadro de S. Pedro. É ele como a coroa e
o vértice da Arte no templo dos monges Bernardos. É de pose
majestosa a imagem de S. Pedro, o pincel deixou naquela tábua quinhentista,
traços admiráveis de grandeza e virilidade e um acentuado
naturalismo que nos recorda o génio de Gioto. O Santo, sentado num trono
gótico-manuelino, revestido de pontifical e de tiara na cabeça,
apresenta o gesto de abençoar, vendo-se num segundo plano, atravez de
janelas abertas sobre a paisagem, duas cenas da vida do Apóstolo: à
esquerda o encontro com Cristo quando fugia de Roma à
perseguição(cena do Quo Vadis?); à direita,
o chamamento ao apostolado.
No mesmo lado e ao fundo do transepto, no altar chamado do Desterro sobressai
o grupo escultórico da Sagrada
Família enquadrado num
políptico executado cerca de 1650 e representando as seguintes cenas:
Fuga para o Egipto, o menino com seus Pais, sonho de S. José e a
matança dos Inocentes. Na nave lateral do norte impõe-se a
pintura do Arcanjo S. Gabriel,
obra de Gaspar Vaz, em tábua de castanho
com as mesmas dimensões da de S. Pedro; e na frente do transepto, as
imagens seiscentistas de S. Bernardo, S. Bento, S.ª Umbelina e S. António,
as duas últimas provenientes das capelas da cerca. O retábulo do
altar-mor, de boa talha joanina de cerca de 1702, enche o fundo da capela de
paredes revestidas de azulejos alusivos
à fundação do mosteiro,
aparecendo a data errada de 1122 dada por Brito, em vez de 1152, por
interpretação do X tracejado que valia 40 e não 10.
São grandes painéis datados de 1718 e que se impõem pela sua
elegância do traço e naturalidade das personagens.
Do lado do
evangelho, S. Bernardo sonha que S. João lhe pede para fundar mosteiro
em Portugal; e o Santo envia os monges com cartas para D. Afonso Henriques. Do
lado da epístola, os monges aparecem num prado à busca do lugar
para a fundação, e faz-se o lançamento da 1.ª pedra.
A sacristia, do lado esquerdo, construida em 1710, apresenta também
paredes azulejadas, paramenteiro com bons apliques de bronzes, um
relicário
vazio e oito painéis medíocres da vida de S. Bernardo.
OUTRAS
OBRAS DE ARTE: esculturas da Virgem com o menino,
policromada, do século XVI; Virgem grávida e um S. Gabriel, pequeno,
de calcário branco, desenterrada no lado de fora da porta da igreja; S.
João Baptista.Azulejos seiscentistas
cobrem arcos e paredes das naves laterais. No braço
esquerdo da transepto poisa a mole granítica do sarcófago do Infante D. Pedro, filho natural de D. Dinis, autor do livro das Linhagens,
falecido na próxima aldeia de Lalim, em 1354. Sobre o colossal arcaz de
granito, estende-se a majestosa estátua jacente do conde de Barcelos,
varão hercúleo, de avançada idade, longas barbas aneladas,
roupagens onduladas até aos pés, mãos empunhando uma espada.
Numa das faces foi esculpida uma cena de caça: dois homens munidos de
chuços e três molossos atacam um javali.
Motivo semelhante se acha
reproduzido na arca tumular da esposa, D. Branca de Sousa, hoje guardada no
museu de Lamego: cavaleiro a galope, de lança em riste, investe contra um javali,
enquanto junto do animal ferido um moço vilão, com lança
pronta, aguarda o resultado. Do recheio merece ainda referência o
monumental órgão,com respectiva tribuna, encomendados em 1766 pelo abade
D. Fr. Félix de Castelo Branco e que veio substituir outro ali instalado
em 1711. Digna de nota a sumptuosa decoração em talha, os tubos
dispostos horizontalmente e a particularidade duma personagem, sentada à
frente da tribuna, de longas barbas e braços meio levantados. Sempre que o
organista tocava, o boneco marcava o compasso com o braço direito e
deitava a língua de fora.
(P.e V. Moreira em "Monografia do Concelho de
Tarouca")
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