MOSTEIRO DE SALZEDAS

Este Mosteiro, tal como o de S. João pertenceu à Ordem dos monges Bernardos. Deve-se, no seu início, Claustros do

	 Mosteiro principalmente, a D. Teresa Afonso, segunda mulher de Egas Moniz. Segundo a tradição e a crónica de Cister, começou a edificação do Mosteiro de Salzedas, no sítio da Abadia Velha, junto de Ucanha; depois assentou-se que foi edificado sobre o rio Torno.
Geralmente afirma-se que o Mosteiro foi fundado no ano de 1167. Anos antes, porém, já ele tinha monges e abade. A Carta de Afonso Henriques, datada de 1163, pela qual doa o Couto de Algeriz a Teresa Afonso para que esta por sua vez o ofereça ao mosteiro de Salzedas, afirma que o possuam os que aí habitam sob a regra de S. Bento. E pela Carta de doação da Igreja de S. Martinho de Gaia, datada do mesmo ano, D. Afonso Henriques oferece esta mesma Igreja ao Abade João Nunes e seus sucessores. Destas doações se vê que em 1163, em Salzedas, já havia um Mosteiro com monges e abade que devia ter levado tempo a organizar-se. D. Teresa, mãe de Afonso Henriques, viveu algum tempo em Salzedas, tendo como aia de seu filho, ainda infante, Teresa Afonso. As generosidades do nosso primeiro Rei para com o Mosteiro inspirou-as certamente a lembrança dos tempos que ali passou, e é o que parece deduzir-se das seguintes palavras da Carta de doação do Couto ao Mosteiro e Monges:
"Damus Cautum de Algeris pro servitio qoud nobis fecistis". Teresa Afonso foi a alma desta instituição, chegando a albergar os frades em sua Vista 

	parcial da vila de Salzedas e do mosteiro própria casa, enquanto corriam as obras do Mosteiro. Afinal morreu sem as ver concluídas, sepultando-a os monges sob um arco da Igreja e mandando-lhe gravar na campa laudatório epitáfio. Nada se sabe hoje do local da sua sepultura. Adscrito à Regra de S. Bento, o mosteiro de Salzedas, só depois de doado a João Cirita, em 1165, é que passou para os Bernardos.
     Edificado sobre o rio Torno, depressa os seus monges agricultaram os subúrbios e formaram uma das mais lindas e férteis cercas da Beira. O seu Couto era muito extenso e no seu termo ficavam campos, lameiros, vinhas e hortas e até algumas povoações, sendo mais importante a Vila da Ucanha.
Rio Torno sob o 

	Mosteiro Além do couto de Algeris teve doações de reis, como Sancho I, Afonso III, Pedro I e D. Manuel, que o tomou debaixo da sua protecção por Carta datada de Sintra; legaram-lhe quintas e casares; D. Flamula em 1258, Eldra Martins e outras donas e cavalheiros, como Vermundo Pais, Gonçalo Canileu, os Marialvas e o Bispo de Lamego; era donatário da Vila da Ucanha, Granja Nova, Vila Chã da Beira e S. Martinho de Mouros; e tinha o padroado das Igrejas, além das terras do limite do Couto, mais: Cimbres, Santa Leocádia, Paços de Tarouca. Tudo isto concorreu para o enorme poderio e para a sua colossal riqueza; e só tamanha riqueza explica a obra gigantesca que foi a sua Igreja e Convento.
A traça deste Mosteiro era enorme. Formavam-no vastas salas para hóspedes, grandes celeiros e cozinhas, longos dormitórios, botica, que foi afamada, e óptimas cavalariças. Mas a todas estas dependências avantajavam-se o claustro grande o pequeno a sala do Capítulo, que ainda hoje podemos ver e admirar. Os quatro dormitórios formavam um quadrado e no centro havia o jardim onde avultava enorme tanque.
De toda esta obra, além dos claustros, da casa do celeiro e de parte dum dormitório, quase nada resta. O que existe deve ser obra do século XVI a XVIII, talvez da iniciativa de D. Fernando I e D. Fernando II, abades do Mosteiro; aquele fundador do Hospital de Ucanha e este restaurador da sua ponte e torre.
Este Mosteiro teve a sorte do de S. João de Tarouca: foi extinto em 1834 e, desde então até há umas décadas atrás tem vindo a ser destruído.


IGREJA DE SALZEDAS

Elegante e espaçosa é esta Igreja, mas não tem os primores artísticos da Igreja de Fachada da 

	Igreja do Mosteiro de Salzedas S. João. Ergue-se ao Sul da povoação de Salzedas, sobre o leito do rio Torno. A sua origem remonta à data da edificação do Mosteiro, ao lado de cujas ruínas se ergue. A sua primitiva traça deve-se a D. Teresa Afonso, segunda mulher de Egas Moniz, que, para não violar a clausura e, querendo comungar dentro dela, pediu e obteve licença para isso do Papa Adriano IV. Tanto o Mosteiro como esta Igreja devem-se a esta senhora piedosa e de génio empreendedor. Da construção primitiva nada encontra hoje o observador atento. Em épocas posteriores, quando os recursos do Mosteiro o permitiram, se ampliou, perdendo, nas sucessivas restaurações, a forma de origem.
É ela hoje uma das mais vastas igrejas do país. Em forma de cruz, de três altas e espaçosas naves, com muitos altares, tem, na capela-mor, um coro de pau santo, muito semelhante ao da Sé de Lamego. A sacristia, que lhe fica contígua, também espaçosa, é de abóbada apoiada numa coluna central. De medianas proporções, tem harmonia de conjunto.    Não podemos filhar esta construção em escola alguma. Levantada em sucessivas etapes, como quase todas as grandes construções monásticas, sofreu a influência das correntes artísticas do tempo.
Numa parte, a mais antiga, domina o românico e o gótico. Nos séculos XVII e XVIII sofreu uma profunda remodelação, em que perdeu as características de origem.
Inspirou-a a época de D. João V, em que a grandeza e a pompa escravizaram o bom gosto. Depois a escola pombalina dominou o frontispício a as torres. Mais modernas do que o resto do edifício, nunca chegaram a concluir-se, ficando incompletas, as suas torres de lindos corucheus e minaretes, pelas convulsões que as invasões napoleónicas espalharam no país. Hoje está inscrito como monumento Nacional.
À entrada dos seus dois grandes pórticos há como que duas criptas; numa e no mesmo túmulo, do lado esquerdo, estão sepultados Abadia Velha os primeiros Condes de Marialva, D. Vasco Coutinho e sua mulher D. Maria de Sousa. No lado oposto, na mesma cripta, está o túmulo do 2.o Conde de Marialva, D. João Coutinho.
Na outra cripta está sem data nem inscrição, com lavores góticos na arca, sobriamente decorada. Ignora-se o nome do cavaleiro ou dona que ali repousa. A sua tampa é medieval, mais antiga do que o resto do mausoléu. Devia ser de alta personagem pela grandeza desta sepultura e pelo local onde se encontra. Será de D. Teresa Afonso?
À entrada do coro estão dois pequenos retábulos, de autor desconhecido com todas as características dos quadros de escola portuguesa do século XVI, muito semelhantes aos quadros da Igreja de Ferreirim.
Na sacristia há um rico contador de pau-santo, alguns quadros com figuras alegóricas da vida de S. Bernardo, enormes gavetões, tudo isto com incrustações de metal burilado e ricas molduras.

P.e V. Moreira em "Monografia do Concelho de Tarouca"

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