O vale encantado que procura

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  • S E B A S T I Ã O  C A R D O S O
    1888 - 1964
    COMPOSITOR AUTODIDACTA E ANTIGO INSTRUMENTISTA
    DA BANDA FILARMÓNICA DE TAROUCA
    ESTA PÁGINA É UMA SINGELA HOMENAGEM À SUA MEMÓRIA, PRESTADA PELO SEU NETO MATERNO ANTÓNIO:

        SEBASTIÃO CARDOSO foi um competente oficial da Câmara Municipal de Tarouca, Sebastião 
	Cardoso sempre pronto a ajudar e a resolver, honestamente e dentro do rigor da lei, problemas postos pelos munícipes. Esta sua característica aliada ao facto de ser um dos maiores músicos do seu tempo em todo o concelho,conquistou a estima e a admiração de todas as pessoas que o conheceram.
        A música estava-lhe no sangue. O contacto com esta arte iniciou-a quando lhe foram transmitidos alguns conhecimentos elementares para poder ingressar na filarmónica da sua terra natal, a Banda Musical de Tarouca, e desde logo se apaixonou por esta nobre arte. De tal forma que, e por si só, quase que instintivamente, foi adquirindo conhecimentos nas partituras que avidamente analisava e na combinação dos sons que escutava, até vir a ser um hábil compositor, além de um exímio executante.

            "Lê e escreve música como quem lê e escreve uma carta", dizia-se lá na terra.

        Pela facilidade com que compunha as suas músicas, não precisava fazer as partituras, elemento de importância para qualquer compositor seguir a linha melódica dos restantes instrumentos enquanto se ocupam de um. Não. Ele escrevia as partes cavas (conjunto dos "papeis" para cada um dos instrumentos), uma após outra e, no fim, batia tudo certo.
        Tocava qualquer peça de música à "primeira vista" e com toda a facilidade e gosto, no seu bombardino, porque antes a lia mentalmente e, quando a ia tocar, já sabia o que lá estava. Era também bom tocador de outros instrumentos da banda filarmónica, bem assim como em instrumentos de cordas, nomeadamente o violão que, com outros tocadores de guitarra ou de outros instrumentos, entravam em sessões de fados e guitarradas, animavam festas, bailes e serenatas e, em representações teatrais amadoras, com actos de variedades e cegadas, acompanhavam os cantantes para os quais fazia a música das letras de canções e operetas que lhe eram propostas.
        Estas manifestações culturais, eram muito frequentes em Tarouca, no tempo da sua juventude, o que hoje não se verifica lamentavelmente. Honra seja feita a algumas bandas filarmónicas do concelho que ainda perduram. No resto, perderam-se tradições que deveriam ter sido preservadas e acarinhadas, para serem transmitidas de geração em geração.
        Mesmo um instrumento que nunca teve: o piano, ele sabia tocar. Era solicitado para ensinar filhos de famílias que o possuíam e, a ensinar, foi também aprendendo a toca-lo.
        A sua modéstia, o seu amor à família, a fidelidade aos seus amigos, o apego à sua terra natal e a total ausência de ambição, levaram-no a recusar insistente convite feito por um músico de alta patente do exército para desenvolver a actividade na área da música na cidade do Porto, que, ao ouvi-lo tocar e, rendido à sua arte, lhe garantiu que se aceitasse o seu convite, viria a ser um músico de renome e, esse facto, lhe traria grandes honras e proveitos. Mesmo regente da sua banda musical sempre recusou ser, apesar de, na sua época, ninguém mais competente haver para desempenhar tal cargo.
       A sua habilidade não se manifestava só na música. Pelo jeito que tinha para o desenho, não eram raras as vezes que lhe pediam que desenhasse letras bonitas para serem bordadas. Algumas capas das suas músicas, manifestavam esta sua outra faceta.
       A morte prematura da sua primeira esposa, Olinda dos Santos, que muito amava, e era a mãe extremosa dos seus seis filhos, que assim ficaram órfãos de mãe, alguns ainda de tenra idade, abalou muito a sua existência. Voltou a casar mais tarde tentando refazer a sua vida, mas nunca mais voltou a ser o mesmo. Apenas a música lhe suavizava um pouco a sua existência e o fazia esquecer por momentos a sua infelicidade.
       Depois de aposentado, deixou a banda e mudou-se para uma casa fora da vila. Ali viveu o resto da sua vida isolado, apenas na companhia de sua segunda esposa e dois filhos que o ajudavam nas lides agrícolas. Continuou a compor as suas últimas peças ou as que lhe iam solicitando para os mais variados fins (marchas militares e outras para as filarmónicas, marchas para desfiles etnográficos, ou cortejos de oferendas, valsas, hinos, canções, etc.).
       Um aparelho de "alta tecnologia" para a época, fez as suas delícias nos últimos anos da sua existência: uma grafonola que lhe foi oferecida por um amigo que com frequência, punha a tocar, repetindo os poucos discos que possuía e cujas músicas passou para papel.
       E foi numa tarde de um domingo do ano de 1964, a ouvir o som da sua grafonola, tavez emocionado pela harmonia que dela emanava, que o seu coração, já muito enfraquecido, não resistiu. Sentado no seu lugar preferido: um cadeirão muito antigo de palha, estava já sem vida quando um jovem amigo, acabado de regressar de Angola da vida militar e querendo fazer-lhe uma surpresa, lhe pegou na mão para o cumprimentar, julgando que ele dormitava.
       Algumas das suas composições estão em poder de um seu neto materno que teve o cuidado de as recolher, num período em que a banda de Tarouca se encontrava desorganizada e, por incúria ou desleixo, o seu arquivo estava abandonado à pilhagem e ao vandalismo. Das restantes desconhece-se o paradeiro.
       Se esta recolha não tivesse sido feita, teriam levado o mesmo destino de tudo o que se encontrava dentro dele: O desaparecimento lamentável de documentos e peças musicais centenários que contariam hoje a história da também centenária Banda Musical de Tarouca.